Lançado em 2004, e eleito o melhor livro do ano pela Time, Jonathan Strange & Mr. Norrell, causou grande sensação entre os admiradores e leitores de fantasia. A autora, Susanna Clarke, é já considerada uma das maiores revelações dos últimos anos.
Segue-se uma crítica ao livro. Não contém spoilers, mas também não se deixaram de fazer referências, superficiais note-se, a certos eventos da história.
É sabido como o género do romance ganhou nova vida e consistência durante a época vitoriana, muito graças a romancistas pioneiras numa nova estética literária como Jane Austen, as irmãs Brönte e George Eliot. E é sabido como o séc. XIX foi fértil em autores de romances que souberam espelhar um retrato incisivo da civilização.
O que não é sabido é como uma autora britânica conseguiu aliar a descrição dessa sociedade tão romantizada e satirizada nos livros, ao mundo dos faeries. Para Clarke, é na verdade, uma sociedade que já assistiu à ascensão da magia, mas agora resignou-se à sua perda. Já não existem mais mágicos em Inglaterra. As portas entre os mundos que antigamente eram visíveis aos olhos dos humanos, desapareceram por entre a natureza selvagem. O reino independente do Norte de Inglaterra deixou de ser governado pelo seu rei mágico, há muitos séculos desaparecido.
Até que no ano de 1807, Mr. Norrell faz a sua primeira aparição em Londres, determinado a restaurar a prática da magia na Inglaterra e seguir a tradição dos grandes mestres áureos. Ou pelo menos, os mestres que mais convém às suas ideias do que deveria ser a nova magia inglesa.
Assim dá-se início a uma das mais originais e vivazes obras de fantasia que surgiram nos últimos anos - Jonathan Strange & Mr. Norrell de Susanna Clarke. Facto mais notável ainda por ser o primeiro romance da autora.
O estilo de Clarke tem sido muitas vezes comparado nas críticas ao estilo pessoal de Jane Austen, aliado ao tom irónico de Dickens. Porventura, haverá um certo exagero nesta comparação; enquanto que a ironia de Dickens era marcada por um certo pathos e uma negritude a servir de pano de fundo, Clarke permeia a sua história com um tom decididamente irónico, mas light. Até mesmo Austen, por trás de todos aqueles enredos amorosos psicológicos, não era livre de uma certa frustração e raiva pela condição da mulher na sua época.
Exceptuando na III e última parte do livro, em mais de dois terços da obra de Clarke, sentimos o profundo divertimento da autora em retratar os gentleman ingleses no meio da sua incredulidade e curiosidade primeiro, admiração e espanto depois, pelo regresso da magia.
Já mencionei uma das personagens que deu origem ao título, Mr. Norrell, falta mencionar a personagem que a meu ver conseguiu inspirar a narrativa com maior frescura, intensidade e uma boa dose de imprevisibilidade – Jonathan Strange. O que em Norrell é antiquado e conservador, em Strange é impulsivo e ousado. Ao passo que no primeiro observamos uma recusa de novas experiências, o segundo é todo ele aceitação.
Tomando uma decisão algo leviana em ser mágico (talvez demasiado leviana até), Strange torna-se pupilo de Norrell, dando ocasião a momentos tanto hilariantes como tensos. O que é certo é que ambos se vêem, de súbito, no centro de um turbilhão político e social, que existe em paralelo com certas manifestações faeries que lentamente ganham protagonismo no enredo…
A guerra contra Napoleão, que ocupa ainda um número considerável de capítulos, será talvez o calcanhar de Aquiles da autora. É legítima e ousada a sua opção em pegar em figuras históricas como o Duque de Wellington e inseri-las no seu mundo ficcional, subvertendo os acontecimentos reais e adaptando-as ao seu mundo mágico.
E em várias entrevistas, Clarke nunca deixa de vincar as suas tentativas de conferir verosimilhança à história, de fazer a magia parecer real, ao nível da magia no quinteto Earthsea de Ursula Le Guin. Nesse sentido, nem sempre é bem conseguida a tentativa da autora; a descrição excessiva das campanhas de Wellington na Península Ibérica, afectadas por magia, esforça demasiado os limites de crença do leitor. A autora está a pedir-nos para acreditar na sua visão, interessante se bem que desnecessariamente alongada, da guerra napoleónica no Continente, mas pede por uma suspensão de descrença que não se processa inteiramente na mente do leitor. E daí que acabe por se perder um pouco nos excessivos detalhes do conflito, deixando para segundo plano o que realmente interessa: o frágil equilíbrio entre o mundo etéreo e o mundo inglês, prestes a despedaçar-se.
Entra-se na III parte do volume, a meu ver, a mais assombrosa e que revela o talento inegável de Susanna Clarke.
É a parte mística, a que liberta forças obscuras que jogam com os destinos dos humanos e os manipulam para servir propósitos só deles conhecidos, é a parte da loucura encenada e verdadeira no meio de uma Veneza misteriosa e fascinante, a parte do amor irrecuperável e desgosto que advém dessa perda.
Os dois gentleman mágicos serão submetidos a provas de fogo, já há muito profetizadas, mas serão Strange e Norrell a manipularem realmente os acontecimentos? Ou apenas peças de um tabuleiro muito mais vasto? Será caso para dizer que existe uma personagem principal ausente, mas sempre presente? Perguntas a que a autora responde de forma enigmática, sem revelar o jogo inteiro.
Uma das curiosidades da obra trata-se das infinitas notas de rodapé onde são contadas histórias e reveladas biografias dos grandes mestres da História da Magia Inglesa. À semelhança do que encontramos nos apêndices de Lord of the rings de JRR Tolkien, em que a mitologia e história da Terra Média são descritas em breves resumos, Susanna Clarke utiliza os rodapés para esse mesmo efeito. A riqueza dos pormenores acaba por arquitectar um todo impressionante e um mundo paralelo consistente que cativa com as suas estranhas proezas de séculos passados.
Uma obra riquíssima povoada de humor e ironia, e de todos os sentimentos que nos fazem partilhar a vida das personagens no meio dos seus receios e ambições, indignações e encanto. E é esta a real prova da superioridade da odisseia de Norrell e Strange, o facto de conseguir tão bem envolver o leitor num ambiente fantástico e exprimir de forma inteligente e elegante a introdução da magia na Inglaterra.
Também se têm invocado semelhanças com Harry Potter, algo totalmente infundado. O que se pode dizer é que tanto Rowling como Clarke se dedicam à criação de uma alternativa, uma sociedade em que a magia está presente. E acabam aqui as semelhanças.
Para mais informação sobre esta obra, recomenda-se o site oficial www.jonathanstrange.com que encerra alguns extras, incluindo um conto e o jornal The Raven – The official paper of record to Jonathan Strange & Mr. Norrell.
Sabe-se que a Editorial Notícias comprou os direitos de autor do livro, mas não existem informações disponíveis sobre para quando está prevista a publicação em português.
[...] Abril 14, 2008 Após o estrondoso sucesso do romance de estreia de Susanna Clarke , Jonathan Strange e o Sr. Norrell, eis que a editora Casa de Letras publica o seu segundo livro, a colectânea de contos As Senhoras [...]