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Após o estrondoso sucesso do romance de estreia de Susanna Clarke , Jonathan Strange e o Sr. Norrell, eis que a editora Casa de Letras publica o seu segundo livro, a colectânea de contos As Senhoras de Grace Adieu (The Ladies of Grace Adieu and Other Stories).

Oriunda de Nottingham, Inglaterra, após concluir a licenciatura em filosofia e política em Oxford, Susanna Clarke desenvolve trabalho para várias editoras nos anos seguintes. Mais tarde, decide partir para o continente, onde lecciona aulas de inglês. Na década de 90, de regresso a Inglaterra, começa a escrever alguns dos contos que iriam dar origem ao romance fantástico de história alternativa, Jonathan Strange & Mr. Norrell, em que a sociedade inglesa do séc. XIX é estranhamente assolada pelas acções e excentricidades de dois mágicos.

A publicação em 2004 do romance de 800 páginas teve um grande impacto mediático e nos meses seguintes Clarke viria a atingir o topo das listas de vendas de New York Times, arrecadando vários prémios pelo caminho como o World Fantasy Award.

Susanna Clarke encontra-se actualmente a escrever um livro passado no mesmo mundo alternativo vitoriano, vários anos depois dos eventos de Jonathan Strange & Mr. Norrell, e centrado em novas personagens. Mas enquanto não está concluído o seu novo romance, a autora publicou uma colectânea de oito contos inseridos no mesmo universo, onde não falta o toque único e mágico das maravilhosas narrativas de Clarke.

Entre os heróis e heroínas que povoam estes contos de fadas podemos encontrar o duque de Wellington ou Maria Stuart, rainha da Escócia, assim como personagens que já habitavam o livro anterior – sem dúvida uma das obras mais brilhantes e originais dos últimos anos – como o próprio Jonathan Strange e o legendário Rei Corvo.

Misturando harmoniosamente a fina comédia social vitoriana com temas clássicos do imaginário britânico, e o rigor histórico com uma desconcertante e fértil imaginação, Susanna Clarke transporta o leitor a um mundo singular e inesperado, cuja atmosfera possui o sabor simultaneamente fascinante e temível dos sonhos.

Susanna Clarke, As Senhoras de Grace Adieu, Casa das Letras P.V.P.: 15,00 €

Todos aqueles que aspiram ao estatuto de escritor secretamente alimentam a crença de que as suas escritas são o tesouro no covil do dragão, à espera de ser descoberto por algum intrépido editor.

Independentemente do valor ou não da escrita, a maioria encara os concursos literários como instrumentos para atingir fortuna e fama. Se o concurso for ganho, a tão desejada publicação do manuscrito é finalmente concretizada, e não faltará muito para ver o livro em todas as livrarias. Talvez. Ou talvez não.

Há concursos literários e há concursos literários. E é importante que o indivíduo que esteja disposto a arriscar a sua sorte nestes concursos, tenha o discernimento suficiente para saber distinguir o trigo do joio, para saber quando esses concursos estão realmente interessados em promover a literatura e tudo o que esta tem de melhor, ou se não estarão antes interessados em obter dinheiro através de estratégias condenáveis e reprováveis.

Serve este post para alertar os eventuais candidatos a título de escritor de que há concursos que, por detrás de uma fachada de genuíno interesse por divulgação de novos autores, escondem uma ganância e um desejo de engordar o saldo da conta bancária à custa da ingenuidade ou desconhecimento das pessoas.

E quem fala em concursos, fala também de editoras, as verdadeiras responsáveis por essas tácticas dúbias.

Passando a exemplos mais concretos, quando devem desconfiar de um concurso literário ou não?

Se prometer direitos de publicação ao vencedor sem este ter direito a qualquer ónus.

Se implicar a cedência de direitos autorais sem estarem os termos bem definidos.

Se prometer a impressão de uma tiragem limitada e impor ao vencedor o pagamento de “x” quantia de livros impressos.

Se cobrar pela inscrição no concurso. Isso não quer dizer que o concurso seja uma fraude, mas é um sinal de alerta (especialmente em Portugal).

Devem verificar sempre a legitimidade da entidade que está a promover o concurso. Se for uma casa ou instituição de mérito ou prestígio reconhecido, há menos sinais para desconfiar (embora isso não queira dizer que não devam ler SEMPRE o regulamento com a máxima atenção possível).

A maioria das editoras ou entidades que patrocinam estes concursos com segundas e terceiras intenções não têm sequer a capacidade de distribuição para que o livro esteja presente em todas as livrarias nacionais. Acreditem quando se diz que a distribuição é um dos maiores problemas no mercado editorial português e que é difícil obter uma distribuição equitativa e justa em Portugal sem ter que desembolsar uma dolorosa percentagem de lucros. Quanto muito irão colocar em algumas livrarias da zona para que os amigos do vencedor possam comprar.

Isso não quer dizer que uma editora que tenha uma distribuição limitada deva ser desprezada. Muito pelo contrário. Há muitas pequenas e médias editoras que têm desenvolvido um excelente trabalho no campo da literatura, mesmo com meios limitados. Mas quando pedem o vosso dinheiro para publicar algo que, à partida, nenhum escritor deve pagar, então é sinal de que estão a ser enganados e roubados.

O que acontece é que os preços cobrados pelas editoras pagam praticamente a totalidade dos custos de impressão (o principal gasto a cargo da editora) e ainda há uma margem que vai directamente para os seus bolsos. Mais ganham se os amigos dos amigos dos vencedores comprarem.

Lá fora são muito frequentes estes esquemas de angariação de dinheiro, embora em Portugal se tenham começado a fazer notar mais nesta última década. Não vou apontar nomes mas existem. A Épica tem tomado conhecimento de vários casos, e muitos nos pedem conselhos sobre se vale a pena ou não participar em tais concursos.

Recomendamos é que não arrisquem às cegas porque publicação nem sempre é sinónimo de ser-se escritor. Nos últimos tempos, tem sido cada vez mais fácil publicar-se um livro com quase a mesma qualidade que uma casa editorial profissional, por metade dos custos. E é preciso desenvolver a auto-consciência de que nem sempre o que se escreve é bom e publicável, por mais que custe a admiti-lo.

Para obterem mais informações, recomendo a leitura deste artigo da parte do Science Fiction Writers of America sobre as fraudes literárias, concursos e esquemas que têm como alvo escritores.

Estamos prestes a revelar o segredo mais bem guardado de todos os tempos. Joe Hill é filho de Stephen King. Ou talvez não seja afinal o mais bem guardado de todos os tempos, embora tenha sido em tempos antigos. Apesar do nome gigante do pai e do seu inestimável contributo para a literatura de horror norte-americana (quem nunca leu ou viu um filme baseado na obra de Stephen King?), Joe Hill não é nenhum mero jovem e inexperiente escritor que tenta ganhar um nome à custa do pai, muito pelo contrário.

É, na realidade, um escritor muito talentoso e o seu primeiro livro Twentieth Century Ghosts, uma colectânea de catorze contos, já então revelava uma voz fresca e segura no domínio da ficção de horror, tendo recebido o Bram Stoker Award e o British Fantasy Award for Best New Horror.

Joe Hill começou a fazer o seu nome graças a editoras independentes britânicas e norte-americanas, tendo visto vários dos seus contos e noveletas publicados em revistas e antologias, algumas comercialmente bem sucedidas. Embora há anos circulassem rumores sobre a sua identidade, em 2007 confirmou publicamente a sua relação com Stephen King.

Em Fevereiro de 2007, publicou o seu primeiro romance, Heart Shaped Box, e rapidamente tornou-se um enorme sucesso literário, tendo atingindo a lista de livros mais vendidos da New York Times.

Mais recentemente, o autor deu início à criação de uma série de banda-desenhada, Locke & Key, em colaboração com a IDW Publishing.

Agora disponível na edição portuguesa, A Caixa em Forma de Coração, o leitor português tem acesso a uma das vozes mais criativas do género do horror a surgir nos últimos anos, autor de um romance que conta a história de um coleccionador de curiosidades mórbidas que se vê envolvido numa perigosa confrontação com fantasmas que não descansarão até obterem vingança.

Judas Coyne colecciona o macabro: um livro de receitas para canibais… uma corda usada num enforcamento… um filme snuff. Uma lenda do death metal de meia-idade, o seu gosto pelo bizarro é tão conhecido entre a sua legião de fãs como os excessos da sua juventude. Mas nada do que ele possui é tão inverosímil ou tão medonho como a sua última descoberta…

Um artigo à venda na Internet, uma coisa tão estranha que Jude não consegue resistir a pegar na carteira. “Vendo” o fantasma do meu padrasto a quem fizer a licitação mais alta. Por mil dólares, Jude tornar-se-á o orgulhoso dono do fato de um homem morto que se diz estar assombrado por um espírito inquieto. Ele não tem medo. Passara a vida a lidar com fantasmas – o fantasma de um pai violento, o fantasma das amantes que abandonara sem compaixão, o fantasma dos companheiros de banda que traíra. Que importância teria mais um? Mas o que a transportadora entrega à sua porta numa caixa preta em forma de coração não é um fantasma imaginário ou metafórico, não é um benigno motivo de conversa. É real.

O livro será adaptado para o cinema num filme a ser realizado por Neil Jordan, a estrear em 2010.

A Caixa em Forma de Coração, CIvilização Editora, P.V.P.: 16,50 €

Site para A Caixa em Forma de Coração (inglês)

Site oficial de Joe Hill

Desde a conclusão da trilogia O Senhor dos Anéis realizada por Peter Jackson, e considerando o avassalador fenómeno que se seguiu que permitiu ao género da literatura fantástica ganhar um protagonismo nunca antes visto, temos assistido a várias tentativas da parte dos grandes estúdios em repetir essa grande façanha que foi a trilogia.

Quase todos os anos desde 2003, temos tido direito a filmes de fantasia com elevados custos de produção, lançados especialmente na época natalícia. As Crónicas de Narnia, O Leão, a Bruxa e o Guarda-Fatos, baseado na obra de C. S. Lewis, tentou reproduzir o sucesso da trilogia de Tolkien, mas longe de atingir os resultados esperados.

Em 2006 começou uma nova tentativa de emular o sucesso tolkieniano, desta vez, recorrendo à célebre trilogia dos Mundos Paralelos (His Dark Materials) do britânico Phillip Pullman. Já anteriormente escrevi sobre os livros neste blogue, e confesso o meu fascínio e admiração pela imaginação e profundidade da obra de Pullman.

A campanha dispendiosa de marketing gerada em torno da adaptação do1º livro, The Golden Compass (Os Reinos do Norte), assim como a inclusão de nomes célebres como Nicole Kidman, Eva Green e Daniel Craig no elenco, originou expectativas quiçá demasiada elevadas.

Mas antes do julgamento, um breve resumo da história. Num mundo onde os humanos caminham lado a lado com as suas almas, os deamons, uma jovem rapariga de nome Lyra Belacqua está à guarda dos anciãos de Jordan College, em Oxford. Indomitável e rebelde à autoridade, Lyra toma conhecimento de estranhos eventos em torno de uma substância misteriosa, o Pó, através do seu tio, Lord Asriel.

Mas antes que Lyra inicie a sua demanda, Mrs. Coulter entra em cena e encarrega-se por um tempo da sua educação longe de Oxford. Mulher e criança entram em conflito e Lyra decide fugir. Em paralelo, as crianças de Oxford estão a ser raptadas por um grupo conhecido como Gobblers e Roger, o melhor amigo de Lyra, é raptado. Com a ajuda de ciganos e um instrumento de nome aletiómetro (a bússola dourada, voilá) ela decide partir em busca de Roger, começando uma aventura maior do que vida que irá afectar todos os mundos paralelos.

Posso dizer com grande segurança que A Bússola Dourada foi um dos maiores fracassos cinematográficos do ano 2007. E totalmente merecido.

Em primeiro lugar, deviam ter mudado o título para O Regresso do Rei Urso Polar. Teria feito mais sentido face ao protagonismo dado ao urso Iorek e a sua luta para recuperar o poder que lhe foi retirado por um urso vilão. Os ursos estão a lutar. Os ursos estão a pensar e a conspirar e a envenenar nas sombras, qual tragédia de Shakespere. Os ursos estão a lutar de novo. Esperem! ESPEREM! Um dos ursos morreu…!

Havia uma história relacionada com pó, mas não sei onde foi parar e as poucas referências que houve a pó estavam inteiramente fora de contexto e algumas até despropositadas.

A actriz escolhida para o papel de Lyra, Dakota Blue Richards, não conhece a diferença entre bravura e petulância. Lyra tem uma grande dose de arrogância que é temperada por coragem e sofrimento e é compreensivelmente difícil para uma adolescente encontrar a medida certa para interpretar a personagem de Lyra. Raramente simpatizei com Dakota Blue Richards e no lugar de Mrs. Coulter teria-lhe dado mais sopapos. Até a relação de Lyra com o aletiómetro não tem piada nenhuma.

Há coisas boas, claro. A recriação do mundo de Pullman é impecável graças aos efeitos especiais. Algumas cenas estão inteiramente fiéis ao livro, como todas as cenas em redor de Bolvangar. As cenas na casa isolada no meio do gelo onde Lyra encontra uma criança que tinha sido submetida à experiência Bolvangar não é má de todo. E antes que me acusem de esperar por um filme inteiramente fiel ao livro, digo em minha defesa de que tudo o que queria era um argumento bem escrito, consistente, fiel ao espírito da obra, mas encontrei exactamente o oposto.

Voltando ao filme. A personagem de Mrs. Coulter é muitas vezes incompreensível para quem não leu os livros, dada a reacções que só devia manifestar numa fase avançada da história. Tanto lhe dá espetar um estalo no macaco dourado, como deixar-se levar por sentimentalismos perante uma fotografia de Lyra. Algumas personagens interessantes foram sub-aproveitadas como Serafina Pekkala ou Lee Scoresby.

Daniel Craig como Lord Asriel tem muito que se lhe diga, extremamente fascinante, mas uma personagem incompleta, mutilada, precisamente porque decidiram tirar toda a cena final do livro. Só com a cena final, a personalidade e as ambições de Asriel tornam-se visíveis aos olhos de todos.

Com essa decisão, o clímax do filme dá-se com a libertação das crianças, salvas pelos nossos heróis intrépidos (e o urso…). O filme termina com a bruxa Serafina Pekkala a mencionar a profecia das bruxas e uma referência à guerra que virá. Guerra?! Que guerra, pensarão os espectadores se nem tiveram sequer referências suficientes neste filme para perceber o conflito que irá ter lugar no 3º volume, The Amber Spyglass? Como pode um espectador se emocionar ou empatizar com esta miserável adaptação quando está tudo retalhado, colado, mal interpretado, ou fora de contexto?

Mas é perfeitamente evidente que este filme foi criado, tendo em mente de que o público é estúpido e não é capaz de compreender coisas minimamente complexas. Estou farta de filmes de fantasia que escolhem tratar as suas audiências como desprovidas de qualquer massa cinzenta e que só percebem as coisas quando estão claramente delineadas entre o bem e o mal, entre o branco e o preto com muita acção à mistura.

Como eles irão apresentar o conflito que gera toda a narrativa da trilogia? Terão eles a coragem de retratar Deus como a figura cruel e decrépita que ele é no livro? E se não, de que vale continuar a adaptar estes filmes para o grande ecrã, se toda a sua essência é eliminada?

E porque escolher eliminar toda a recta final do livro, relegando-a para o 2º filme? Porquê escolher terminar o filme antes do grande momento final em que Asriel comete um acto de enorme crueldade e Lyra toma o primeiro passo em direcção a outros mundos paralelos para nunca mais voltar a ser a criança que era?

O melhor é ler os livros apenas, esquecer esta adaptação atroz e incompetente, concentrar-se em saborear a leitura das aventuras de Lyra. Alguns filmes simplesmente não valem o preço do bilhete.

Em 2006, foi criada a revista Bang!, dirigida pelo editor da Saída de Emergência, Luís Corte Real, com Rogério Ribeiro a assumir a responsabilidade do cargo de editor. Apesar dos esforços de divulgação, a revista em formato papel deu origem apenas a 3 números (incluíndo o número 0). Todavia, assistindo-se a um contínuo interesse do público pela literatura fantástica, assim como, um crescente número satisfatório de downloads de outros ebooks produzidos, foi decidida a continuação da Bang! em formato digital gratuito. Nas palavras do editor Luís Corte Real:

Depois de três números (porque o n.º 0 também conta), chegámos à conclusão que era trabalho a mais para colocar apenas 250 revistas nas livrarias. Revistas essas que se vendiam a 3.90 € cada (caras, portanto) e que mesmo assim não se conseguiam pagar (prejuízo, portanto). [...] Chegámos portanto à conclusão que das duas, uma: ou cancelávamos a Bang! ou encontrávamos uma alternativa. A alternativa que escolhemos foi a que tem em frente aos olhos. A Bang! deixou de ser uma revista com apenas 250 exemplares em papel para se transformar num PDF que contamos ter milhares de downloads.

A nova edição que surge conta com mais páginas e textos maiores. Dois ensaios merecem particular destaque, Sobre o Fantástico na Literatura Portuguesa por David Soares e A Perspectiva Alienígena por João Seixas. Não poderia deixar de destacar também o texto do Rogério Ribeiro sobre o Fórum Fantástico 2007, Apanhar as canas do FF2007.

E os leitores potenciais escritores podem começar a limpar o pó de manuscritos, se querem participar no Prémio Bang! 2008, cujo regulamento encontra-se disponível no ebook. Espera-se que a criação deste prémio possibilite o surgimento de novas vozes portuguesas na área do fantástico.

No campo da ficção, há muito por onde escolher. Começamos por um texto da autoria de João Barreiros, Fantascom, sobre uma inusital covenção de literatura fantástica, e ainda um conto de Vasco Luís Curado em que a tentativa de apagar um antigo amor da memória tem consequências trágicas. Destaque também para Dois Contos Súbitos de Luís Filipe Silva.

Material não falta para abrir o apetite e a participação na Bang! está aberta a todos os interessados, uma vez que a revista oferece ainda incentivos adicionais para quem quiser experimentar a sua sorte e submeter contos ao editor.

Podem fazer aqui o download da única revista portuguesa de fantástico.

Fórum Fantástico 2007

Está a aproximar-se mais uma edição do Fórum Fantástico, este ano a decorrer de 8 a 10 de Novembro, no auditório Vitor de Sá da Universidade Lusófona.

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Todas as informações podem ser encontradas no site oficial.

Em 2004, um novo escritor britânico contemporâneo foi revelado, um capaz de rivalizar com o talento de autores prestigiados como Ian McEwan e J. G. Ballard.

David Mitchell, natural de Lancashire, Inglaterra, formou-se na Universidade de Kent em Literatura Inglesa e Norte-Americana.

Como professor de língua inglesa, passou vários anos a viajar e após viver um ano em Sicília, Itália, mudou-se para o Japão onde durante oito anos deu aulas de inglês.

O seu primeiro romance, Ghostwritten, laureado por A.S. Byatt como um dos melhores romances de estreia em muitos anos, apresenta nove narradores contando histórias que se interligam, de Nova Iorque a Okinawa e Mongólia.

O Japão acabaria por ser uma influência determinante na sua experiência como escritor, sendo o cenário eleito para o seu segundo romance, Number9dream, a história de um rapaz de nome Eiji Miyake e a sua busca por um pai que não conhece.

Um escritor muito ambicioso, e conhecido pelas suas narrativas complexas e multifacetadas, foi com a publicação de Atlas das Nuvens (Cloud Atlas) em 2004, que se consagrou como um dos mais talentosos e promissores jovens escritors britânicos.

Nomeado para o Man Booker Prize, Atlas das Nuvens, agora também disponível numa edição portuguesa, relata seis narrativas interligadas, começando pelo Pacífico Sul no século XIX ao encontro de um futuro onde grande parte da Humanidade pereceu numa catástrofe nuclear.

Um viajante forçado a atravessar o Oceano Pacífico em 1850; um jovem compositor deserdado, conquistando à força de tortuosas invenções um modo de vida precário num solar da Bélgica, entre a Primeira e a Segunda Grande Guerra; uma jornalista com princípios morais na Califórnia do governador Reagan; um editor menor fugindo aos seus credores mafiosos; o testamento de uma ‘criada de restaurante’ geneticamente modificada, ditado na ala da morte; e Zachry, jovem ilhéu do Pacífico que assiste ao crepúsculo da ciência e da civilização. São narradores que escutam os ecos uns dos outros e vêem os seus destinos alterados.

Atlas das Nuvens (2004), para além de ter sido um dos finalistas do Man Booker Prize, em 2005 recebeu o Literary Fiction Award e o Richard & Judy Best Read of the Year dos British Book Awards. De notar que foi também um dos romances no campo da ficção científica mais laureado em tempos recentes, tendo recebido nomeações para os prémios Nébula e Arthur C. Clarke, entre outros.

O seu último romance lançado em 2006, Black Swan Green, semi-autobiográfico, conta a vida de um adolescente de 13 anos durante um mês. O próximo romance de Mitchell, previsto para 2009, embarca numa viagem ao tempo histórico do Sakoku, o período de auto-isolamento do Japão e a sua relação com a ilha de Dejima, um posto comercial holandês e a única influência europeia permitida no Japão no tempo do Sakoku.

David Mitchell, Atlas das Nuvens, D. Quixote, 27, 75 euros

Uma publicação de todo inesperada da editora mais inesperada.

Quicksilver, o romance de Neal Stephenson, acaba de ser lançado nas livrarias portuguesas pela editora Tinta da China, sob o título Argento-Vivo. Numa edição de excelente qualidade, eis que chega o I volume do Ciclo Barroco, constituído por 8 volumes (originalmente publicados em três livros).

O autor norte-americano, natural de Maryland, EUA, provém de uma família de cientistas e engenheiros que estimularam a sua vocação para as ciências. Começou a escrever nos anos 80, mas foi apenas com a publicação de Snow Crash, em 1992, um dos mais importantes títulos a epitomizar a cultura cyberpunk, que o autor se tornou popular no género da ficção científica.

Argento-Vivo narra a história do protagonista Daniel Waterhouse, no tempo da Restauração da dinastia Stuart em Inglaterra, no séc. XVII. Daniel é um amigo de Isaac Newton e assiste às espantosas transformações que se operam na sua época onde uma nova forma de pensamento começa a ditar as regras, abrindo passagem à era da ciência.

A erudição, o rigor e a imaginação de Stephenson tornaram o Ciclo Barroco uma das mais interessantes séries de romances histórico-alternativos, compondo um ambicioso retrato sobre o nascimento da ciência.

O Ciclo Barroco é constituído pelos romances Quicksilver, The King of Vagabonds, Odalisque, Bonanza, The Juncto, Solomon’s Gold, Currency e System of a World. Existe também o livro Cryptonomicon, cujos acontecimentos incidem em eventos do séc. XX.

O romance histórico-científico que, com personagens como Leibniz e Newton, reconstitui o nascimento da ciência moderna. Um romance extraordinariamente rico, divertido e infinitamente imaginativo que confere vida plena aos acontecimentos mais significativos de uma época histórica notável.

Neal Stephenson, Argento-Vivo, Tinta da China, P.V.P.: 22.41 €

O primeiro volume de uma saga de fantasia é sempre especial. Para além da óbvia função de introduzir pela primeira vez um leitor num universo com regras específicas e totalmente distanciadas do mundo real que conhecemos, é o livro que conserva um sentimento de nostalgia para o leitor interessado. Nostalgia pelo passado da história que estamos a ler, pois ela já avançou bastante no futuro. E nostalgia também por aquele prazer da descoberta aquando a primeira leitura. Claro que isto só é válido para os que se deixam seduzir pelo contador de histórias em questão.

Quer isto dizer que o primeiro volume é sempre aquele em que revemos as personagens e enredos numa posição ainda de inocência e descrença pelas circunstâncias em que subitamente se viram forçados a enfrentar. Todos os inícios são pautados pela inocência. E isto é ainda mais verdade em O Olho do Mundo de Robert Jordan.

 

Após 11 volumes, é difícil recordarmo-nos de como as personagens viveram antes de conhecerem a verdade sobre elas próprias, a verdade de que há mais coisas no céu e na terra para além dos limites da comunidade rural e que, subitamente, os elementos das trevas que eles julgam existir apenas em pesadelos ou histórias de velhas tontas, materializam-se bem no limiar das próprias casas.

Mas passemos à história em si. Existiu uma antiga guerra. Uma guerra tão fatal que quebrou o mundo e dispersou os povos em ruínas. A batalha deu-se entre as classes mais poderosas, os Aes Sedai. Homens e mulheres com a capacidade de manipular o poder cósmico que gira a Roda do Tempo. Se são suficientemente afortunados para nascer com esse talento inato, crescem e são treinados para se tornarem Aes Sedai.

Alguns juraram servir o campeão da Luz, encarnado em Lews Therin Telamon, o Dragão. Outros traíram os seus pares e aliaram-se a Shaitan, o Destruidor. O prólogo de O Olho do Mundo narra os finais acontecimentos dessa guerra e como Lews Therin Telamon sucumbiu à loucura causada pelas suas próprias mãos. Ao aprisionar Shaitan, o contra-ataque do Senhor da Escuridão manchou a parte masculina do poder da Roda do Tempo. E assim todos os homens Aes Sedai enlouqueceram e a destruição que causaram com a sua insanidade foi a que arrasou o mundo.

Este é o background mitológico essencial que dinamiza todo o enredo de A Roda do Tempo. A criatividade envolvida na construção deste corpus mitológico é um dos factores que deve servir de avaliação da qualidade de qualquer saga de fantasia, e posso dizer que o autor criou algo de singular e irrepetível, exclusivo apenas ao nome Robert Jordan.

O escritor descreveu os seus heróis masculinos como destruidores, temidos mais do que tudo pela Humanidade, e o modo como, três mil anos depois, ainda são temidos, afecta todo o enredo. Profecias indicam que Thelamon, o Dragão, irá reencarnar num novo paladino da Luz, mas ninguém deseja uma nova confrontação que irá trazer os ventos de Tarmon Gai’don, A Última Batalha.

No entanto, o destino começa a ditar as regras e, um dia, Moiraine Sedai chega a uma pequena vila onde descobre três jovens rapazes. A sua busca, que já durava há mais de vinte anos, chegara ao fim e sabia que um desses rapazes se iria tornar o homem mais temido e odiado do mundo, a reencarnação do Dragão. Era importante manipulá-lo e submetê-lo à vontade da classe feminina Aes Sedai.

É o encontro de Moiraine Sedai e Lan, o seu guarda, com Rand Al’Thor, Perrin Aybara, Matt Cauthon, juntamente com Nynaeve Al’Meara e Egwene Al’Vere que inicia a saga A Roda do Tempo e transporta-a muito para além da pequena vila, cruzando muitos reinos, muitos povos, muitos perigos, muitas verdades e traições, muitas mentiras e confrontações, muitas alianças e paixões.

Cada personagem pertence a uma terra com traços sociológicos e culturais distintos e a atenção aos detalhes enriquece a trama e dota-a de descrições aprofundadas e vívidas. Os mitos e a História fundem-se e todo o passado renasce de novo, tornando importante a tarefa de preservar esse legado histórico e mitológico. Nunca esquecerei quando descobri pela primeira vez a história de Lan, o companheiro de viagem de Moiraine, the Uncrowned King of Malkieri. Ou quando Moiraine revelou aos aldeões de Two Rivers o seu passado histórico, uma história de bravura e resistência quase inteiramente esquecida.

Rand é uma personagem ainda demasiado inocente neste livro, tentando escapar ao seu destino, recusando-se a aceitar a verdade. É um pobre camponês em cujas veias escorre o sangue de reis e guerreiros, mas ainda irá levar tempo até aceitar a inevitabilidade do seu destino.

Até lá, deixamo-nos levar pelas suas aventuras e a dos seus companheiros, liderados por Moiraine, a Aes Sedai sempre ambígua e nunca de total confiança. Matt Cauthon é o comic-relief da série, Perrin Aybara é um bom rapaz, mas atormentado por coisas que não consegue ainda compreender. Egwene e Nynaeve, a seu tempo, irão ascender em poder e influência, tornando-se peças vitais no tabuleiro.

Em O Olho do Mundo temos o primeiro vislumbre, mas ainda nos seus primórdios, da arquitectura épica que ainda está para vir e que atingirá a força total no 4º volume, A Sombra Alastra, esse sim, um épico em todas as palavras. Conheceremos ainda muitos povos e os seus costumes, e cada um terá uma importância que Rand não poderá ignorar.

Para quem gostaria de ficar a conhecer um pouco melhor da verdadeira fantasia épica, Robert Jordan é leitura obrigatória.

Robert Jordan [1948-2007]

A fantasia épica ficou mais pobre no passado dia 16 de Setembro com o falecimento de Robert Jordan, o autor do best-seller internacional, a saga A Roda do Tempo.

Há mais de 1 ano, em Março de 2006, o autor anunciara no site da Locus que lhe fora diagnosticada uma doença rara, Amiloidose, não lhe restando mais do que uma esperança de vida mediana de 4 anos. Chocante como esta notícia fora para os seus milhares de fãs, demonstrou também uma força e um optimismo que o fizeram ganhar a admiração e respeito de muitos. Batalhou contra a doença e chamou a atenção de muitos para as vítimas, não só de Amiloidose, como doenças terminais.

O seu blog tornou-se o lugar não só de constantes actualizações sobre a evolução da saga, mas um local onde todos puderam observar um fenómeno único, o de um escritor, mas acima de tudo, um homem, narrando a sua luta contra o fim inevitável, apoiado e encorajado por milhares de pessoas que partilharam a sua dor por uma morte anunciada e prematura.

Robert Jordan, pseudónimo de James Rigney Jr, enfrentara anteriormente muitas vezes a morte. Um soldado veterano, serviu duas vezes na guerra do Vietname, recebendo muitas honras e condecorações. Após regressar à sua terra natal, a Charleston na Carolina do Sul, licenciou-se em Física e trabalhou para a Marinha como engenheiro nuclear.

Começou a escrever em 1977 e inicialmente ganhou alguma notoriedade como autor de novas histórias de Conan, o Bárbaro. Mas foi no início da década de noventa que se lançou no seu projecto mais ambicioso, a série de fantasia, A Roda do Tempo (The Wheel of Time). O primeiro volume, O Olho do Mundo (The Eye of the World) foi publicado em 1990 e a série tinha sido concebida inicialmente como uma trilogia, mas Jordan decidiu dar novos rumos ao arco principal da história e assim se tornou uma obra de magnitude épica, ampliada para 12 volumes.

Com o passar da década, e com a publicação subsequente dos outros volumes, conquistou muitos leitores leais e uma base internacional de fãs que crescia a cada dia que passava, tornando-se um fenómeno de culto. Para consternação de muitos, a saga não estava completa aquando a morte do autor. Robert Jordan encontrava-se a trabalhar no volume final, A Memory of Light, mas tomou previdências para que o livro pudesse ser completado da forma como sempre quis. Muitos suspeitam, embora ainda não haja confirmação oficial, de que a sua mulher e editora, Harriet, terminará o 12º volume no seu lugar.

Independentemente das opiniões sobre o rumo que tomava A Roda do Tempo, tornou-se uma das vozes indisputáveis do género da fantasia épica e o seu sucesso abriu o caminho para a publicação e consagração de muitos outros autores norte-americanos.

A sua morte foi bastante sentida entre a comunidade de literatura fantástica, a julgar pela quantidade de escritores, leitores e editores que decidiram prestar-lhe uma homenagem e reconhecer o seu contributo para a fantasia, como Neil Gaiman, George R. R. Martin, entre muitos outros.

Em Portugal, Robert Jordan foi publicado pela primeira vez em Junho de 2007, pela editora Bertrand. O primeiro volume, O Olho do Mundo, encontra-se disponível nas livrarias portuguesas, estando prevista a publicação de mais três volumes, A Grande Caçada, O Dragão Renascido e A Sombra Alastra.

Site e blog oficial do autor

Títulos publicados em Portugal:

O Olho do Mundo, Bertrand

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